segunda-feira, 15 de junho de 2009

O natural mundo de jovita

Arraial, povoado ou lugarejo, não importa o nome, mas um lugar com casas simples e espalhadas. Algumas delas exibindo suas varandas, alpendres e janelas de madeira. Outras timidamente mostram apenas seus telhados, deixando o verde cobrir o resto, além, daquela que se esconde atrás das árvores se condenando apenas pelo cachorro dormindo, galinhas ciscando e pelo canto do galo. Um pouco abaixo a venda do senhor Bernadino, separada por um balcão de madeira, e nas prateleiras as latas de sardinha, massa de tomates, sabonetes, caixinhas com envelopes de sal de frutas e rolos de fumo. No chão muitos galões de querosene para abastecer lampiões e lamparinas, única fonte de luz do lugar. E nos fundos do armazém algumas sacas de alimentos semi-abertas, no balcão a balança de pesar e em fileiras os pesos de ferro, sem esquecer a velha cachaça em tonéis de madeira.
Ao lado da linha de ferro, a estação de trem dá um ar de alegria aquele pitoresco panorama. Na plataforma da estação as pessoas sentadas em bancos de ferro ou apoiadas em suas próprias bagagens esperam o trem. Alguns andarilhos dormem no chão e outros mendigam, são alcoólatras e até mesmo intelectuais que se aventuram andar sem destino. A chegada do trem faz quebrar a monotonia naquele ambiente, com o entra e sai das pessoas, formando um cenário de alegria e tristeza, entre chegadas e despedidas. Também, motiva a corrreria das crianças que acompanham o trem acenando e se misturando entre eles. Ali perto, descendo a rampa da estação e apoiado pelos velhos dormentes de madeira, o interminável e desgastado trilho, exalando um cheiro de óleo vindo de estopas espalhados pelo chão. Mais adiante, o velho curral de ferro para embarcar bois, já corroído pela ferrugem e dominado pelo mato. Ao lado, o pontilhão onde o trem quando passa se mostra por inteiro, porém, escondido atrás do morro está o campo de futebol cercado por cupins e formigueiros.
Atravessando a pequena ponte, aparece a escola toda branca, de portas e janelas de duas bandeiras com trincos em cima e em baixo. Dentro da sala de aula está o quadro negro onde o giz falhando se desliza, o globo terrestre sobre a mesa, carteiras para dois e na parede cartezes comemorativos.
No fundo da escola está a casa dos zeladores Sr. Vicente e Dona Veronica, rodeadas por flores e sobre a pequena mesa um bilha de água fresca, espera pelas crianças que brincam no pátio, trocam suas merendas e as comem antecipadamente. O recreio é na porta da igrejinha ou no velho cruzeiro de madeira, seco pelo sol e cercado por muro de cimento.
Neste cenário vive jovita, uma adolescente de jeito comportado, mas muito esperta. Cansada de repetir a terceira série primária, porque é o máximo que a escola oferece e dividir sua carteira com Vicentinho, que é mau educado e cheira peixe. O pai de Jovita sempre orgulhoso da filha considera a escola lugar de gente descente e faz o seguinte comentário: - Não fico incomodado vendo minha filha na escola, fico satisfeito, assim ela não esquece a leitura aprendida. O lugar de brincadeira de Jovita é na árvore redonda, tem este nome devido seus galhos tão baixo que tocam no chão ou catar coquinhos e come-los debaixo do bambuzal.Sua tarefa na família é na lida da casa, assando broa de fubá, fritando bolinhos e tirando água na cisterna. Aos domingos seu traje de missa é um vestido de fundo branco e bolinhas amarelas ou, blusa de elástico nas mangas e saia plissada azul, completando com sapato chanel amarelo de bico fino e ainda guardava cheiro de novo. Seu amanhecer a fazia sentir alegre e livre. O cheiro de mato, a gota cristalina do orvalho sobre as folhas, o voo silencioso das borboletas sobre poças de água e os primeiros raios de sol. Sentada no chão, com um pedaço de graveto ela tenta reproduzir na areia molhada toda aquela beleza. Ali perto o som suave do riacho corta a terra com suas águas, enquanto as aranhas tecem suas teias unindo as árvores, na tentativa de protege-las. E no entardecer o toque de recolher dos passáros, anunciando a noite com seu perfumado sereno e o brilho das estrelas. Este é o mundo natural de Jovita.

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